O futuro das operações críticas no Brasil: por que precisamos de sistemas espaciais nacionais
Tecnologias de navegação, comunicação e observação da Terra apoiam decisões em defesa, energia, meio ambiente, infraestrutura e monitoramento territorial. O domínio nacional dessas capacidades reduz dependências externas e amplia nossa autonomia para atender às prioridades do país.
Entenda como esse desenvolvimento contribui para o futuro das operações críticas brasileiras!
Dominar tecnologias espaciais amplia a autonomia do Brasil
A soberania tecnológica é a pode se definida como a capacidade de um país tomar decisões sobre tecnologias essenciais aos seus interesses e ter conhecimento para concretizá-las. No setor espacial, isso significa dominar o funcionamento dos sistemas para que sua evolução acompanhe as necessidades brasileiras. Com essa competência, uma mudança nos requisitos de uma missão pode ser atendida por equipes nacionais, com autonomia para desenvolver e validar os ajustes necessários.
A dependência externa limita essa capacidade quando o acesso a um equipamento, ao software ou à manutenção fica condicionado ao fornecedor. Se um componente deixa de ser fornecido, sua substituição pode exigir alterações no projeto e novos testes de integração. Sem conhecimento próprio para executar esse trabalho, o país pode enfrentar atrasos e custos adicionais ou até interromper uma missão.
Por isso, desenvolver tecnologia no Brasil exige preservar também a engenharia, a documentação e a capacidade de testar e aperfeiçoar os sistemas. É essa base de conhecimento que permite dar continuidade aos projetos e responder a novas necessidades com maior autonomia.
Essa capacidade atende a diferentes necessidades:
- Gestão de ativos e infraestrutura: acompanhar as condições do entorno de instalações e corredores logísticos para direcionar inspeções e intervenções.
- Meio ambiente: monitorar alterações na vegetação, nos corpos d’água e no uso do solo.
- Gestão territorial: fornecer informações para planejamento, fiscalização e acompanhamento da ocupação do território.
- Defesa e segurança: apoiar a vigilância de fronteiras e o acompanhamento de áreas de interesse estratégico.
Sistemas de observação da Terra permitem acompanhar áreas extensas e identificar mudanças que exigem atenção. Ao integrar imagens de satélite a dados de campo e históricos operacionais, podemos transformar registros do território em informações para orientar inspeções, manutenção e planejamento.
Entenda também como dados de campo complementam as imagens de satélite, em um exemplo aplicado à gestão de ativos do setor elétrico.
Tecnologia espacial para a defesa nacional
Na defesa nacional, satélites ajudam a monitorar fronteiras e levam comunicação a regiões remotas. As informações obtidas do espaço permitem às Forças Armadas acompanhar mudanças no território e planejar operações com uma visão mais completa das áreas de interesse. Em um país com a extensão territorial do Brasil, especialmente, isso é importante para identificar ocorrências em locais onde a presença em campo é limitada.
Por isso, importa também ter autonomia para definir quais áreas observar, acessar os dados e manter os serviços disponíveis. Quando essas funções dependem de fornecedores externos, o atendimento às prioridades brasileiras pode ficar sujeito a condições que o país não controla. Desenvolver capacidades próprias dá ao Brasil mais controle sobre os recursos tecnológicos necessários à sua defesa.
Parte desse esforço envolve as Empresas Estratégicas de Defesa (EED), credenciadas pelo Ministério da Defesa para atuar com produtos estratégicos de defesa, conforme requisitos legais. O credenciamento exige, entre outras condições, conhecimento científico ou tecnológico no Brasil e continuidade produtiva nacional, de modo que competências necessárias a esses programas permaneçam disponíveis no país.
Na Concert Space, somos uma Empresa Estratégica de Defesa e participamos desse esforço com o desenvolvimento de tecnologias espaciais, como o SNI-GNSS, em conjunto com nossos parceiros.
MLBR: um foguete nacional para desenvolver capacidade própria de lançamento
O Microlançador Brasileiro (MLBR) foi concebido para desenvolver no Brasil um foguete de pequeno porte capaz de colocar pequenos satélites em órbita baixa. O projeto busca ampliar a autonomia brasileira em uma etapa decisiva dos programas espaciais: levar ao espaço as tecnologias desenvolvidas no país.
Depender exclusivamente de lançamentos contratados no exterior exige adequar missões à disponibilidade e às condições de outros operadores. Com um lançador nacional, o Brasil terá maior liberdade para planejar o acesso ao espaço conforme suas prioridades, dentro da capacidade prevista para o veículo.
O desenvolvimento do MLBR também reúne no país o conhecimento necessário para construir e integrar um lançador orbital. A experiência adquirida pelas equipes brasileiras cria uma base para novos projetos e dá à indústria nacional maior participação nas decisões técnicas que determinam o funcionamento de uma missão.
Financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, via Finep, em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB), o projeto reúne Cenic Engenharia, ETSYS, Concert Space, Delsis e Plasmahub, com as parceiras Bizu Space, Fibraforte, Almeida’s e HORUSEYE TECH. Também contribuem a CRON Sistemas e Tecnologias, no SNI-GNSS, e a CLC, nos algoritmos de estabilidade.
Conheça os sistemas do MLBR e nossa participação no desenvolvimento do microlançador.
Navegação inercial: conhecimento nacional em uma função crítica
A navegação inercial é uma das tecnologias cujo acesso pode estar sujeito a restrições internacionais de transferência. Depender de sua aquisição no exterior deixa um componente essencial do lançador condicionado à autorização de outros países. Desenvolver esse sistema no Brasil reduz essa vulnerabilidade em uma função indispensável ao voo.
O Sistema de Navegação Inercial com auxílio de GNSS (SNI-GNSS) estima a posição, a velocidade e a orientação do veículo. Para isso, combina medições de sensores inerciais com informações de navegação por satélite, como o GPS, que ajudam a corrigir os erros acumulados nas estimativas.
Na Concert Space, participamos desse desenvolvimento com a HORUSEYE TECH e a CRON, no Consórcio DJED, por meio de uma encomenda tecnológica da AEB. O projeto conecta uma necessidade do programa espacial brasileiro à capacidade de empresas nacionais de desenvolver a solução.
Sua importância para a soberania nacional no acesso ao espaço está no domínio da engenharia de navegação, que permite ao Brasil incorporar uma tecnologia própria ao lançador e preservar o conhecimento necessário à sua evolução.
Esse conhecimento também pode apoiar versões adaptadas do SNI-GNSS para aplicações na aeronáutica e na defesa, conforme os requisitos e as etapas de qualificação de cada projeto.
Como exemplos de programas brasileiros que demandam competências em navegação, podemos citar o AV-TM 300, míssil tático de cruzeiro desenvolvido pela Avibras, e o MANSUP, Míssil Antinavio Nacional de Superfície, desenvolvido para a Marinha do Brasil com participação da SIATT, integrante do EDGE Group. Ambos dependem de sistemas que determinem sua posição e orientação durante o voo. No MANSUP, por exemplo, a guiagem inercial orienta o percurso, enquanto o radar permite localizar e acompanhar o alvo na fase final do voo.
Aprofunde essa discussão no conteúdo sobre por que o Brasil precisa dominar sua própria tecnologia de navegação inercial.
A continuidade dos projetos preserva a capacidade tecnológica brasileira
O conhecimento adquirido em um projeto não termina ali, ele permanece nas equipes e serve de base para as próximas missões. Cada solução desenvolvida e testada acrescenta experiência à engenharia brasileira, que pode aplicar esse aprendizado a novos desafios.
Preservar essa capacidade exige continuidade: equipes qualificadas, documentação, infraestrutura de testes e novos projetos que aproveitem o conhecimento acumulado. É assim que o investimento em tecnologia pode gerar competências duradouras para o Brasil.
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