Armazenamento de energia no Brasil: por que o país precisa acelerar?
O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com forte presença de fontes eólicas, solares e, principalmente, hidráulicas. A vantagem competitiva está consolidada, porém ainda não alcança todo o seu potencial. O motivo é claro: a infraestrutura nacional ainda carece de mecanismos capazes de transformar essa energia disponível em operação estável, flexível e eficiente. O armazenamento de energia cumpre esse papel essencial ao modernizar o sistema elétrico brasileiro.
Sem soluções que absorvam excedentes e entreguem energia nos momentos críticos, a rede permanece vulnerável à variabilidade climática e depende de fontes mais caras ou menos sustentáveis para equilibrar oferta e demanda. O país já possui ampla geração limpa, mas ainda precisa estruturar a maneira como essa energia é utilizada.
Para entender por que armazenamento virou tema central no setor elétrico e qual o papel de microrredes e baterias nesse contexto, siga a leitura.
Qual a importância do armazenamento de energia para a estabilidade do sistema elétrico?
Fontes como solar e eólica, que estão entre as mais utilizadas atualmente, trazem um desafio conhecido: a geração oscila. Sol e vento não seguem o mesmo ritmo do consumo e a rede precisa manter equilíbrio contínuo entre oferta e demanda. Sem uma solução que absorva excedentes e entregue energia nos momentos certos, a operação sofre com as variações e pode aumentar a dependência de térmicas, que têm custo maior e emissões mais altas.
Armazenamento responde a esse ponto de forma direta. A tecnologia permite guardar energia quando há sobra, liberar energia quando a geração cai e reforçar a estabilidade da rede. O papel do armazenamento também inclui reserva estratégica para situações de emergência, com relevância maior em regiões expostas a falhas de infraestrutura e/ou eventos climáticos extremos.
Cenário atual do armazenamento de energia e principais desafios
O avanço global já mostra escala. Em 2023, a capacidade global de armazenamento em baterias chegou a 55,7 gigawatts (GW), com crescimento de 120% em relação ao ano anterior, segundo o REN21 (Renewables 2024 Global Status Report). Em 2024, o mercado manteve o ritmo, com recorde de instalações na ordem de 205 gigawatt-hours (GWh) no ano, de acordo com a Rho Motion, em análise publicada pela Energy-Storage.news.
O Brasil, apesar do protagonismo em energia limpa, ainda registra avanço limitado em armazenamento. Em 2024, o país instalou 269 megawatt-hours (MWh) e chegou a 685 MWh de capacidade acumulada, conforme estudo da consultoria Greener divulgado pela PV magazine Brasil. O mesmo levantamento indica que cerca de 70% do armazenamento atende sistemas isolados e aplicações off-grid, o que evidencia baixa participação do armazenamento na infraestrutura conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
A agenda de armazenamento no Brasil ainda enfrenta entraves. O tema avança na esfera regulatória, com a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) publicando nota técnica com a análise das contribuições da Consulta Pública CP 39/2023, voltada à regulamentação do armazenamento.
O Ministério de Minas e Energia (MME) também abriu consulta pública para o primeiro leilão de baterias do país, dentro do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026 Armazenamento, com foco em contratação de potência e reforço à estabilidade do sistema. Mesmo com esse avanço, o setor ainda depende de maior clareza sobre modelos de contratação e remuneração, requisitos técnicos e condições que ampliem previsibilidade para investimento e financiamento.
Microrredes aliadas do armazenamento como parte da resiliência do sistema elétrico
Microrredes são estruturas locais de geração e distribuição que podem operar conectadas à rede principal ou de forma isolada. Quando microrredes operam com armazenamento, o sistema ganha autonomia em situações críticas e melhora a resposta a apagões e desastres climáticos. Em áreas como partes dos Estados Unidos e Porto Rico, microrredes integradas a sistemas de armazenamento já permitem que hospitais, escolas e centros comunitários mantenham autonomia energética em situações de emergência.
No desenho do setor elétrico, microrredes com armazenamento apoiam modernização da infraestrutura, reduzem perdas associadas à transmissão em longas distâncias, aliviam carga sobre a rede central e fortalecem a continuidade de serviços essenciais em regiões remotas. O conjunto também aproxima o sistema elétrico da realidade do usuário, com mais flexibilidade e confiabilidade.
Sistemas BESS em um projeto pioneiro no Brasil em rede de distribuição de 13,8 kV
Sistemas de armazenamento por baterias, conhecidos como BESS (Battery Energy Storage Systems), aparecem como uma alternativa relevante para lidar com intermitência e desafios técnicos na rede de distribuição. Baterias eletroquímicas oferecem resposta rápida e flexibilidade, com aplicações como backup, arbitragem e compensação da variabilidade de fontes eólicas e solares. A modularidade permite uso em diferentes escalas, de sistemas residenciais a instalações centralizadas.
A Concert Lab participou de um projeto desenvolvido em parceria com Cemig, UFMG, FITec e ITEMM, no âmbito do P&D ANEEL, com foco na implementação e avaliação de sistemas de armazenamento em redes de distribuição de 13,8 kV. O trabalho começou em 2017 e incluiu escolha de tecnologias de armazenamento, com baterias de íons de lítio e chumbo-carbono avançado.
O projeto seguiu para desenvolvimento executivo e construção das plantas piloto, com testes de aceitação em fábrica. A fase de instalação e comissionamento ocorreu no campus da UFMG, no alimentador BHMR27, seguida por experimentos e testes em campo entre 2022 e 2024. Os testes demonstraram eficácia na prestação de serviços ancilares, com regulação de tensão e deslocamento de picos (peak shaving) entre os destaques.
O projeto também ampliou produção técnica e capacitação no setor elétrico:
• 8 artigos em periódicos
• 9 trabalhos em congressos
• 3 teses de doutorado
• 2 dissertações de mestrado
• 4 trabalhos de iniciação científica
• 3 workshops
• 2 webinars
No segundo semestre de 2025, a CEMIG validou o projeto pioneiro por meio de testes na UFMG e no Mineirão que comprovaram a funcionalidade do sistema. Com base nesses resultados obtidos em Belo Horizonte, a Cemig projetou e licitou a primeira microrrede do país dedicada a um município, em Serra da Saudade (MG), combinando geração solar, baterias de armazenamento e medição inteligente para garantir energia contínua.
Como vimos, o armazenamento de energia precisa ocupar uma posição estratégica no planejamento o setor elétrico para viabilizar uma matriz mais flexível, resiliente e distribuída. A transição energética brasileira depende dessa base de flexibilidade para sustentar a expansão das renováveis com estabilidade do sistema e a tendência é que isso se intensifique nos próximos anos.
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