Monitoramento Climático: 4 soluções espaciais apresentadas na COP30
Eventos climáticos extremos se tornaram mais frequentes e mais impactantes em termos sociais e econômicos. Enchentes, secas prolongadas e queimadas em larga escala afetam cidades, infraestrutura e biomas em todo o país. Nesse cenário, o monitoramento climático com base em dados confiáveis passou a ocupar papel central na gestão de risco.
A COP30, realizada no Brasil, refletiu essa urgência ao destacar o tema em diversos painéis. A Concert Space participou dessa agenda com a presença de Rafael Mordente, CEO da empresa, no painel “Space, Technology and Innovation: Space-Based Solutions for Environmental Monitoring” (Espaço, Tecnologia e Inovação: Soluções Baseadas no Espaço para o Monitoramento Ambiental), dedicado ao uso de dados de satélite e soluções digitais para acompanhar florestas, carbono, água e mudanças no uso do solo.
MLBR, YaraTracker, Imagery e ATTOsat integram esse esforço, com propostas que ampliam a capacidade de observar o clima e o uso do território a partir do espaço.
O papel do monitoramento climático e do sensoriamento remoto
Monitoramento climático é o acompanhamento contínuo de variáveis ambientais — como temperatura, índices de chuva, concentração de gases e uso do solo — para entender tendências e eventos extremos do clima. Essa prática ganha urgência diante das mudanças climáticas: eventos meteorológicos severos tornaram-se mais frequentes e intensos.
Em 2024, o Brasil registrou 10 eventos climáticos extremos, segundo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), dos quais três foram considerados sem precedentes: chuvas no Rio Grande do Sul, seca na Amazônia e onda de calor no centro do país. Do mesmo modo, queimadas recordes refletem esse novo normal: mais de 30 milhões de hectares foram queimados no país em 2024, um salto de 79% em relação a 2023, segundo a MapBiomas. Esse aumento abrangeu especialmente a Amazônia, que sozinha respondeu por cerca de 17,9 milhões de hectares queimados.
Nesse sentido, o conceito de sensoriamento remoto Trata-se da coleta de informações da Terra por sensores a distância – típicamente embarcados em satélites, drones ou aeronaves – para observar o planeta sem contato direto.
O resultado são dados multiespectrais valiosos: por exemplo, imagens de satélite no infravermelho revelam a saúde da vegetação pelo vigor da cor verde, enquanto dados de radar mapeiam alagamentos mesmo com cobertura de nuvens. Assim, o sensoriamento remoto permite monitorar vastas regiões de forma contínua e precisa, algo impraticável apenas com inspeções em solo.
As aplicações são diversas e convergentes com as demandas do clima: vai desde acompanhar o desmatamento em grande escala até avaliar riscos de desastre natural em áreas propensas a deslizamentos, inundações ou secas. Também viabiliza rastrear parâmetros planetários, como temperaturas de superfície, níveis de CO₂ atmosférico, extensão de calotas polares e padrões de chuva – dados essenciais para embasar políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Parágrafo Novo
Tecnologias em desenvolvimento com foco ambiental
A Concert Space investe em iniciativas tecnológicas que aliam o setor espacial à sustentabilidade ambiental. São projetos que vão da infraestrutura de lançamento de microssatélites a plataformas de inteligência artificial, todos voltados a aprimorar o monitoramento climático e a gestão de recursos naturais. A seguir, destacamos quatro frentes em desenvolvimento – MLBR, YaraTracker, Imagery e ATTOsat – que exemplificam essa convergência entre tecnologia aeroespacial e proteção do meio ambiente.
MLBR
O MLBR (Microlançador Brasileiro) é um projeto nacional para construção de um veículo lançador de pequeno porte capaz de colocar nanosatélites em órbita baixa. Financiado pelo MCTI/Finep em parceria com a AEB, o programa reúne um arranjo de empresas brasileiras de alta tecnologia, incluindo a Concert Space, para viabilizar um veículo lançador de 12 metros de altura, 1,1 metro de diâmetro e cerca de 30 kg de capacidade de carga útil orbital. O MLBR simboliza um salto na autonomia do Brasil no acesso ao espaço e na soberania tecnológica nacional.
Do ponto de vista climático, o MLBR funciona como infraestrutura fundamental para levar sensores ambientais ao espaço. Ou seja, ele possibilitará lançar com independência novos satélites de monitoramento – desde nanossatélites meteorológicos até microssatélites dedicados a observar desmatamento, qualidade do ar ou recursos hídricos.
Graças à posição privilegiada do Brasil próximo à linha do equador, lançadores como o MLBR podem colocar satélites em praticamente qualquer inclinação de órbita, com órbitas equatoriais tendo menor consumo de combustível, abrindo caminho para missões focadas na Amazônia e demais biomas tropicais com revisitas frequentes.
YaraTracker
O YaraTracker é um projeto inovador desenvolvido pela Concert em parceria com a Embrapa Territorial, voltado à gestão inteligente de recursos hídricos. Em essência, trata-se de uma solução orbital de sensoriamento remoto que aplica inteligência artificial para identificar e acompanhar, de forma automática e contínua, corpos d’água em larga escala.
A motivação está nas limitações das abordagens tradicionais de monitoramento hídrico, baseadas em observações locais e esporádicas – especialmente em regiões semiáridas, onde a disponibilidade de água é crítica. Com o YaraTracker, imagens de satélite (com possível apoio de drones em áreas específicas) alimentam algoritmos de IA que detectam açudes, lagoas, reservatórios e até tanques de aquicultura, mapeando sua extensão e variações ao longo do tempo.
O foco especial em aquicultura e recursos hídricos reflete demandas reais: a Embrapa busca monitorar milhares de pequenos reservatórios e fazendas aquícolas dispersos pelo território. Em vez de deslocar equipes para checar manancial por manancial, a proposta do YaraTracker é varrer enormes áreas e gerar alertas ao detectar anomalias.
Por exemplo, a integração de dados de satélite, drones e sensores terrestres pode revelar padrões anômalos na temperatura da água, no nível de oxigênio ou na concentração de nutrientes – informações cruciais para evitar mortandade de peixes em viveiros ou explosões de algas nocivas em reservatórios.
Imagery
O Imagery é uma plataforma da Concert Technologies já aplicada no setor elétrico que corrobora o uso de imagens de satélite e inteligência artificial para prevenir riscos ambientais de forma prática. A ferramenta realiza o monitoramento inteligente da vegetação próxima a redes elétricas, automatizando um serviço vital para concessionárias de energia.
Por meio de imagens de satélite e drones combinadas com dados de LiDAR e vistorias terrestres, o Imagery identifica árvores e trechos de mata que oferecem risco de interferência em linhas de transmissão, priorizando áreas críticas e otimizando planos de poda. O olhar sistêmico – árvore a árvore, constantemente atualizado – permite agir antes que galhos causem curtos-circuitos ou quedas de energia durante tempestades.
Originalmente concebido para aumentar a confiabilidade do setor elétrico, o mesmo método de sensoriamento remoto com IA pode ser estendido para monitorar florestas e áreas verdes em escala regional, identificando degradação vegetal ou risco de incêndios florestais. De fato, monitorar a vegetação é duplamente importante: além de evitar danos a infraestruturas, contribui para a resiliência climática ao reduzir interrupções de serviços essenciais frente a eventos extremos.
ATTOsat
O ATTOsat é um microssatélite em fase de concepção orientado ao monitoramento climático da Amazônia. A missão parte da experiência da torre de observação ATTO (Amazon Tall Tower Observatory) e busca estender esse tipo de medição para uma escala regional e possivelmente global, com carga útil voltada à observação de aerossóis atmosféricos, formação de nuvens e efeitos do uso do solo. A expectativa é gerar conjuntos de dados que permitam relacionar queimadas, poluição e desmatamento com parâmetros como qualidade do ar e comportamento da precipitação na bacia amazônica.
O conceito do ATTOsat prevê operação em órbita equatorial, com lançamentos a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (MA). Essa configuração aproveita a posição geográfica do Brasil, com potencial de reduzir o consumo de combustível em relação a órbitas mais inclinadas e de aumentar a frequência de revisita sobre regiões tropicais. Em um cenário de maturidade da missão, a Amazônia poderá ser observada diversas vezes ao dia, formando séries temporais densas para apoiar estudos climáticos e ambientais focados no bioma.
Reflexões que ficam
O monitoramento climático discutido na COP30 permanece atual e tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. Tecnologias espaciais, inteligência artificial e sensoriamento remoto já integram decisões sobre obras, políticas públicas e operações em um cenário de maior variabilidade climática.
A agenda de adaptação depende cada vez mais de dados consistentes e de soluções que aproximem ciência, setor produtivo e poder público. Como destacou Rafael Mordente no painel, “nós temos pontos de convergência onde podemos, em parceria com o Estado, desenvolver tecnologias que sejam do interesse público.”
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