Flexibilização da Demanda de Energia: Caminhos para um Setor Elétrico mais Eficiente e Sustentável
A flexibilização da demanda de energia – também conhecida como resposta da demanda – refere-se à capacidade dos consumidores ajustarem voluntariamente seu consumo elétrico em resposta a sinais (como preço, incentivos ou solicitações do operador) para ajudar a equilibrar oferta e demanda no sistema elétrico. Em outras palavras, parte do consumo pode ser reduzida, aumentada ou deslocada no tempo conforme a necessidade da rede elétrica.
Essa movimentação é fundamental em sistemas com alta participação de fontes renováveis variáveis, permitindo acomodar melhor a geração solar e eólica, reduzir picos de carga e diminuir custos operacionais ao transferir consumo de momentos caros (ponta) para momentos de excedente de energia ou ao transferir o consumo de horários de pico para períodos de menor custo ou maior disponibilidade de energia.
Como resultado, a demanda flexível contribui para a confiabilidade do sistema e modicidade tarifária – ou seja, operação mais segura e contas mais baixas aos consumidores. Diferente do aumento tradicional da oferta (usinas), atua-se pelo lado da demanda, evitando acionar termelétricas, mais caras, ou mesmo evitando novos investimentos em geração e redes adicionais, de acordo com EIA. (E
Benefícios e oportunidades da flexibilização da demanda
A flexibilização da demanda traz vantagens que vão além da operação do sistema elétrico. Ao permitir que consumidores ajustem seu consumo em resposta a sinais do mercado ou da rede, a prática abre caminho para um sistema mais eficiente, competitivo e sustentável. Os benefícios vão desde a redução de custos estruturais até a criação de novos modelos de negócio, com impactos positivos para consumidores, empresas e o setor como um todo.
1. Redução de custos sistêmicos
Ao achatar a curva de carga, a resposta da demanda ajuda a evitar ou adiar investimentos em novas usinas e redes, que normalmente seriam necessários para atender picos de consumo pouco frequentes. Além disso, melhora o aproveitamento da geração existente, mantendo usinas mais próximas de sua faixa ideal de operação e reduzindo o acionamento de fontes caras e poluentes. Esses ganhos se traduzem em maior eficiência e, potencialmente, tarifas mais baixas.
2. Benefícios para os consumidores participantes
Consumidores que participam da flexibilização podem ser recompensados financeiramente ao ajustar seus hábitos de consumo, seja por meio da redução de carga em horários de maior preço ou pela adesão a tarifas que incentivem esse comportamento. Estudos internacionais indicam que, em regiões com tarifas elevadas, clientes residenciais podem receber até US$ 200 por ano por participar desses programas. No Japão, empresas agregadas pela Enel X obtêm receita ao oferecer redução de demanda, o que melhora sua competitividade enquanto contribuem com o sistema.
3. Novos modelos de negócio e serviços especializados
A flexibilização da demanda cria espaço para o surgimento de novos agentes e modelos comerciais. Plataformas de gestão de energia para edifícios, agregadores focados em nichos específicos — como supermercados ou condomínios — e fabricantes de dispositivos inteligentes estão entre os atores que ganham relevância. A oferta de serviços energéticos integrados, como consultorias em eficiência e contratos baseados em desempenho, passa a complementar (ou até substituir) o modelo tradicional centrado apenas na venda de energia.
4. Sustentabilidade e vantagens ambientais
Ao viabilizar maior participação de fontes renováveis, a resposta da demanda ajuda a reduzir a emissão de gases de efeito estufa e a dependência de usinas fósseis em horários críticos. Para empresas com metas ESG, participar de programas de flexibilização pode ser também uma estratégia de posicionamento. Em um cenário futuro, a redução certificada de consumo em momentos específicos pode, inclusive, se tornar fonte de créditos de carbono, agregando valor ambiental mensurável às ações de gestão da demanda.

Avanços regulatórios no Brasil
Nos últimos anos, o Brasil apresentou importantes avanços regulatórios para viabilizar a flexibilização da demanda no setor elétrico. Em 2017, a ANEEL lançou um projeto-piloto temporário de Resposta da Demanda (REN 792/2017), focado principalmente em grandes consumidores do mercado livre. Essa iniciativa serviu como base para o desenvolvimento de um programa permanente: em agosto de 2022, a Resolução Normativa 1.040/22 estabeleceu critérios para inserir de forma contínua a resposta da demanda no Sistema Interligado Nacional (SIN).
As Regras de Comercialização desse programa entraram em vigor em janeiro de 2024, permitindo que consumidores habilitados ofertem reduções de carga ao operador do sistema como recurso operacional.
Em paralelo, a ANEEL implementou sandboxes regulatórios para testar modelos de flexibilidade em ambiente controlado. A Resolução Autorizativa 12.600/22 viabilizou um projeto-piloto do tipo “sandbox” para resposta da demanda por disponibilidade, no qual participantes competem em leilão oferecendo reduções de carga, simulando um mercado experimental.
Adicionalmente, foram aprovados sandboxes tarifários visando incentivar o consumo flexível por meio de novas modalidades de tarifa. Seis distribuidoras iniciaram projetos-piloto tarifários envolvendo mais de 41,5 mil unidades consumidoras em diversos estados.
Tecnologias habilitadoras
A resposta da demanda em larga escala depende da adoção de tecnologias capazes de registrar, comunicar e automatizar o consumo de energia com agilidade e precisão. Abaixo, estão as principais tecnologias que viabilizam essa transformação.
Medidores inteligentes
Essenciais para programas de flexibilização, os medidores inteligentes registram o consumo em intervalos curtos e permitem comunicação remota em tempo quase real. Viabilizam tarifas por horário e sinalizações dinâmicas de preço, além de fornecerem dados ao operador do sistema. No Brasil, a Copel e a Enel SP já investem na expansão dessa infraestrutura. Em países como o Reino Unido, mais de 50% das residências já utilizavam essa tecnologia em 2022.
Automação e Internet das Coisas (IoT)
A automação é fundamental para que os consumidores respondam rapidamente aos sinais do sistema. Dispositivos IoT, como sensores e controladores, ajustam cargas automaticamente sem necessidade de intervenção manual. Isso permite, por exemplo, reduzir climatização em horários de pico ou deslocar o funcionamento de equipamentos. Estudos apontam que a automação pode dobrar a efetividade das reduções de carga em residências.
Inteligência Artificial (IA)
Algoritmos de IA analisam dados de consumo, clima e preços para prever picos de demanda e identificar oportunidades de ajuste. A tecnologia também coordena múltiplos recursos, decidindo quais cargas devem ser reduzidas a cada momento. Em pilotos aplicados a edifícios comerciais, a IA já alcançou cortes de até 20% no consumo de pico com manutenção do conforto.
Armazenamento de energia
Baterias permitem armazenar energia em momentos de sobra e fornecê-la à rede nos picos, atuando como um “coringa” da flexibilidade. Sistemas residenciais ou corporativos com baterias conseguem reduzir drasticamente a demanda nos horários críticos. No Brasil, essa tecnologia ainda é incipiente, mas já começa a ser utilizada em aplicações comerciais e no agronegócio, com expectativa de crescimento à medida que os custos diminuem.
Veículos elétricos e V2G
Com recarga controlada, veículos elétricos podem se tornar ativos flexíveis valiosos, carregando fora do horário de pico e até devolvendo energia à rede por meio do conceito de Vehicle-to-Grid (V2G). Projetos-piloto já demonstraram a viabilidade dessa abordagem em países como Japão, EUA e Reino Unido. No Brasil, a aplicação ainda é inicial, mas já existem discussões em ambientes como frotas corporativas e campus universitários.
O Brasil no contexto internacional
O Brasil ainda está em fase inicial na implementação da flexibilização da demanda, especialmente quando comparado a países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão, que já operam com mecanismos consolidados, medição inteligente em larga escala e forte participação deagregadores. No entanto, o país reúne condições favoráveis para avançar rapidamente nesse campo.
A abertura do mercado livre até 2026 (Lei 14.182/2021), a consolidação do programa estruturado de Resposta da Demanda e os resultados esperados dos sandboxes tarifários indicam um movimento coordenado rumo à ampliação dessa prática para diferentes perfis de consumidores. A recente formalização dos agregadores de demanda também segue tendências internacionais, possibilitando a participação coordenada de pequenos consumidores em programas de resposta da demanda.
Além do avanço regulatório, o país conta com iniciativas de inovação conduzidas por empresas nacionais. A Concert Technologies, por exemplo, participa do desenvolvimento de plataformas tecnológicas no piloto da Enel São Paulo, reforçando o papel da indústria nacional na construção de soluções adaptadas à realidade brasileira.
Com o alinhamento entre regulação, tecnologia e engajamento de mercado, o Brasil tem a oportunidade de estruturar um modelo eficiente de gestão da demanda, promovendo segurança operacional, eficiência econômica e maior integração de fontes renováveis no sistema elétrico.
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