Por que você deveria começar a escutar Podcasts

LAURA SOARES
22 de Julho de 2019

Palavras-chave/Key-words: podcast, multiculturalismo, diálogo, narrativa

Por que você deveria reavaliar sua relação com a informação:

Viver conectado e alerta a todas as mais sutis transformações do nosso mundo não é nada fácil, apesar de ser uma necessidade real e diária de todos nós. Imersos às inúmeras faces impositivas da economia da atenção - às vezes somos nós as figuras exigentes e conscientes e, em outras, somos o marasmo de desatenção e desinteresse que finda iniciativas criativas diversas -, é preciso nos fazer despertos, não unicamente às mais confusas informações, mas à realidade que nos mostra à frente dos nossos afetos. 

Especialistas do big data nos falam sobre a habilidade de transformar em conhecimento todas as informações que recebemos a cada segundo de nossos dias. Desacordados frente às nossas múltiplas e simultâneas telas, é difícil saber qual tipo de conhecimento, qual o ponto do mais difuso e insondável universo das habilidades humanas, nós devemos buscar. 

Conectar os pontos é um desafio que, na maioria das vezes, requer um conjunto de conexões humanas. Estas que não são matemáticas, programáticas e unilaterais. Não são um único ponto que influi estímulos frios, ultra informacionais e que nos mantém passivos. É preciso se conectar ao outro, ao ser humano que existe ao seu lado - seja este físico ou emocional-, para fazer sentido a nossa realidade. 

É preciso conhecer em profundidade aquilo que nos afeta. É preciso, por isso, perceber que esses inúmeros estímulos informacionais que recebemos pelos nossos dispositivos nos tocam de maneira a criar uma narrativa. Esta que circula pela nossas vidas coletivas e que subsiste em conexão direta ao microcosmos de significações individuais. 

Quem não se emociona ao assistir ao documentário “Democracia em Vertigem”? Assinado por Petra Costa, grande cineasta brasileira, o filme discorre sobre a realidade política brasileira - esta que aflige a todos nós com suas contradições e contraposições extremas-, em sintonia completa com sua história familiar. O filme não é apenas informativo e reflexivo à medida em que explora o universo público das transformações políticas, ele faz uma ponte de afeto (esta que embargou os olhos de tantos espectadores) com a história de vida de Petra. Uma história que, como muitas que nos são vividas diariamente, é permeada por oposições e encontros. 

E é isso que não podemos deixar de fazer nunca. Nos implicar no cotidiano, nas esferas actanciais das nossas narrativas conjuntas e individuais. É preciso vestir os óculos do outros (ou apenas ouvi-lo de forma genuína) para diminuir o atordoamento contemporâneo. É preciso colocar-se de frente a todo esse emergir informacional e se questionar: por que essa informação me interessa? Como ela me afeta? O que ela implica na vida dos outros? 

E é neste ponto que estendo o convite ao hábito de se escutar podcasts. 

Uma breve definição do que é Podcast:

Podcast é uma forma de publicação de conteúdos de áudio. De acordo com Lúcio Luiz e Pablo de Assis, no texto “O podcast no Brasil e no Mundo: um caminho para a distribuição de mídias digitais” (2010), o termo Podcast, em inglês, é a justaposição entre a expressão “Personal On Demand”, de modo a também se associar ao termo “iPod”, e “Broadcast”. É um formato que se assemelha em estrutura aos programas de rádio e se diferencia à medida em que permite que os ouvintes consumam o conteúdo por demanda em plataformas agregadoras de transmissão contínua (feed RSS). É uma mídia de distribuição direta e atemporal.

Nele são apresentadas sessões de áudios que pode ter sua duração variada, normalmente entre 20 minutos a duas horas, e podem assumir a natureza de entrevistas; rodas de conversas; monólogos e até formatos híbridos. Hoje existem inúmeros produtores (pessoas normais que produzem conteúdo) que usam desta mídia como forma de divulgar seus interesses e iniciar conversas online. 

Os podcasts são considerados uma mídia da cibercultura e, assim, no contexto da web atual, eles refletem a inversão dos paradigmas da comunicação. Diferentemente dos programas de rádio, os podcasts são exemplos de como o receptor dita o andar o processo comunicativo. Além de ser capaz de produzir o seu próprio conteúdo, inclusive no formato de áudio, ele também é ativo e se relaciona com à mídia e com os produtores à medida em que é ele que acaba por determinar qual o conteúdo mais relevante.

Neste sentido, há quem diga que o podcast é um processo comunicacional que se inicia com a distribuição de arquivos de áudio online, mas que não se limita só a isto. É notável que o formato participa de um conjunto maior de diversidade midiática em um projeto de comunicação,  mas é sobretudo ele o potencial estimulador de um novo e emergente universo conversacional em rede.

O Brasil é um grande produtor de podcasts e existem, em língua portuguesa, inúmeros a respeito de diversos temas e em diversas configurações. O mundo todo também produz e compartilha narrativas, desde grande instituições (como Tate Modern de Londres) até pessoas normais com produções mais pontuais. Basta acessar sua plataforma favorita e pesquisar. 

Por que então escutar Podcast:

As sessões de Podcast não são apenas uma forma de ouvir o que o outro tem a dizer, apesar disso já ser razão suficiente para escutar-las. Elas nos fornecem em um significativo período de tempo e on demand a possibilidade de refletir. No caminho ao trabalho, em casa, na academia e em qualquer lugar que nós estivermos, os podcasts permitem que ocupemos atividades rotineiras e que, por vezes, são automáticas, com a possibilidade de nos envolver com a nossa realidade afetiva, seja ela povoada por quaisquer figuras e temas. 

Ouvir o outro e nos implicar em sua narrativa com nossas opiniões, expectativas e vivências, é um exercício precioso e urgente. Os podcasts também são uma forma de estourar nossas bolhas informativas e otimizadas e acessar universos narrativos destoantes dos nossos. É possível ouvir cotidianamente pessoas de origem, crenças e línguas completamente distantes das nossas. Isto tudo nos nossos dispositivos móveis, no nosso tempo e no lugar que quisermos. 

O mundo de hoje exige que nos façamos ativos. É preciso que fique claro que não basta ser o ponto final de um circuito linear de informações. Não basta ser apenas uma curtida ou apenas um receptáculo que repete informações alinhadas. É preciso fazer com que essas telas sejam facilitadoras de novas relações. 

O Podcast é um convite à revisão da nosso lugar no mundo. Não só ele, é preciso mencionar, mas qualquer expressão que carregue em si um conteúdo relevante e humano. Aqui cabe dizer, a despeito do que parece ser um juízo de valor, que para ser humano basta que o conteúdo seja dotado de intencionalidade e que faça sentido para alguém. 

Façam-se ativos nas suas relações com a informação, complexifiquem as suas narrativas cotidianas e vejam como o mundo muda. Os Pocasts são ótimos começos para essa jornada!  

Conheça um pouco de mim a partir dos meus podcasts favoritos:

O Tate Modern, uma das maiores instituições de arte
do mundo, fala sobre arte e a vida dos artistas.

Jeffery Saddoris, artista contemporâneo, criou um podcast
multiformato no qual ele fala sobre vida, criatividade e arte.

YellowCast é produzido por um grupo de criativos belo-horizontinos.
Os temas das conversas giram em torno do mundo criativo brasileiro, porém
a informalidade do programa tende a levá-los a falar sobre universos maiores. 
 
O Sala de Edição é um podcast sobre cinema, produção audiovisual
para mídias e, sobretudo, sobre o processo de edição de filmes.
Lá são entrevistados muitos profissionais notórios do Brasil.

Sobre a autora:

Referências Bibliográficas:

Jean-Marie Floch. Alguns conceitos fundamentais em Semiótica Geral. São Paulo. 2001. 

Clifford Geertz. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro, 1989.

Tracy Leigh Hazzard.How to Become the Center of Influence Through Podcasting with a Social Mind” with Oliver Yonchev of the Social Minds Podcast. Authority Magazine. 2019. Disponível em: <https://medium.com/authority-magazine/how-to-become-the-center-of-influence-through-podcasting-with-a-social-mind-with-oliver-yonchev-fa80b9219c51>. Acesso em: 30 abril 2019.  

Lúcio Luiz e Pablo de Assis. O podcast no Brasil e no Mundo: um caminho para a distribuição de mídias digitais. Intercom. 2010. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2010/resumos/R5-0302-1.pdf>. Acesso em: 30 abril 2019.