MULHERES NA TECNOLOGIA

                                                                                                                                                              TAMARA MENDES

                                                                                                                                                        8 de Março de 2019

Palavras-chave: mulheres, tecnologia, computação

Já notou quantas mulheres atuam diretamente com o desenvolvimento de tecnologia? Por que poucas mulheres ingressam nos cursos de computação? Este artigo aborda tais questionamentos e discute a participação feminina na história da computação.

A DIFERENÇA DE GÊNERO

A tecnologia está cada vez mais presente no dia a dia das pessoas. Aplicativos para celulares, redes sociais, e-commerce. Você já pensou sobre quem está criando toda essa tecnologia? Apesar de termos homens e mulheres consumindo produtos tecnológicos, eles estão sendo produzidos majoritariamente por homens. E por que debater isso é importante do ponto de vista empresarial? A diversidade dentro das equipes está associada a maior produtividade e traz diferentes perspectivas para a produção, melhorando a qualidade dos produtos entregues [1].

Em 2016, 18% dos graduados em computação nos Estados Unidos eram mulheres. No mestrado, eram 30% e, no doutorado, 20% [2]. Apenas 12% dos leitores do Stack Overflow (site de perguntas e respostas para programadores) são mulheres. O número de mulheres nas pesquisas anuais do Stack Overflow variou de 5.8% a 7.6%, desde 2015 [3]. O gráfico da Figura 1 mostra a curva de porcentagem de mulheres formadas em diferentes campos entre 1975 e 2010 [4]. Enquanto a tendência da taxa de mulheres formadas em Medicina, Direito e Física foi crescer, na computação houve uma queda drástica a partir de 1985.

AS CAUSAS DA DESIGUALDADE

Existem algumas teorias que justificam a discrepância de gênero na computação. Quando surgiram os primeiros cursos na década de 70, mulheres que se interessavam por matemática migraram para a computação. A queda da taxa de mulheres na área coincidiu com o crescimento do número de vendas de computadores pessoais nos Estados Unidos. Os comerciais eram voltados para o público masculino. Os computadores geralmente ficavam no quarto dos meninos para que eles jogassem. Em contrapartida, as meninas não eram incentivadas a interagir com as máquinas [5].

A definição que a sociedade faz do que é ser mulher e o que é ser homem interfere no desenvolvimento de seus interesses e habilidades. Desta forma, a vocação pela área de exatas também está relacionada à forma como as crianças são criadas. Os brinquedos oferecidos às meninas são predominantemente voltados para a vida doméstica (bonecas, panelinhas), já os meninos – com carrinhos, computadores e vídeo games – conseguem ter as habilidades das exatas melhor estimuladas desde pequenos. Por muito tempo, a própria figura do nerd foi associada apenas ao homem.

 Figura 1 – Porcentagem de mulheres em cursos de diferentes áreas ao longo dos anos
(Fonte: National Science Foundation. Crédito: Quoctrung Bui/NPR).

COMO MUDAR O CENÁRIO

Precisamos de uma mudança cultural: motivar as meninas a seguir carreiras de exatas e tecnologia; ao presentear uma criança com um brinquedo, escolha algo motivador que você daria a qualquer uma, independente do gênero.

As empresas podem criar e adotar medidas que diminuam a desigualdade de gênero, como: garantir a equidade salarial; criar mentorias voltadas ao público feminino; conscientizar os colaboradores para que se crie um ambiente menos hostil para mulheres, livre do assédio e do machismo; para as mães, pode-se flexibilizar o horário de trabalho e oferecer a possibilidade de home office. No âmbito legislativo, igualar o tempo de licenças paternidade e maternidade também ajudaria a diminuir as desigualdades salariais.

A Accenture é um exemplo de empresa com ações para incluir mais mulheres: plano de desenvolvimento individual, treinamentos, fóruns e eventos internos exclusivos para mulheres. Além disso, oferecem horário flexível e um programa de home office para novas mães [6]. Já a Ericsson é uma das apoiadoras do projeto Girls in ICT Day, que visa estimular jovens mulheres a escolherem profissões do mercado de tecnologia [7].

Existem também alguns grupos com a iniciativa de inspirar e preparar mulheres para trabalhar com tecnologia, tais como Women Techmakers, Women Who Code, She's Tech, progra{m}aria, InfoPreta, dentre outros [8].

REPRESENTATIVIDADE

Frequentemente elas não são citadas nos livros de história, mas as mulheres também foram protagonistas na ciência. Dentre elas, tivemos algumas pioneiras na computação.

Alan Turing é conhecido por ter sido um dos pioneiros da computação, porém, quantos ouviram falar de Ada Lovelace? Ela é considerada a primeira pessoa programadora da história. Ada estudava matemática e lógica desde criança. Na juventude, começou a trabalhar com o matemático Charles Babbage. Em 1842, ela traduziu o artigo sobre o funcionamento de uma máquina analítica 

para Babbage e acrescentou anotações de sua própria autoria maiores que o próprio artigo. Dentre essas anotações, ela escreveu o primeiro programa da história: um algoritmo para calcular a sequência de Bernoulli. Mais de cem anos após sua morte, as notas de Ada foram reconhecidas como a primeira descrição de um computador e um software. Nessa época, Ada foi citada no trabalho de Turing. Em 1979, o Departamento de Defesa dos EUA registrou a linguagem de programação Ada, em sua homenagem. A maior contribuição de Ada à computação foi enxergar que o computador poderia fazer outras operações além de contas numéricas [9].

Grace Hopper foi uma cientista da computação que trabalhou na Marinha dos Estados Unidos. Hopper desenvolveu a linguagem de programação Flow-Matic que, apesar de já extinta, serviu como base para a criação do COBOL – uma das primeiras linguagens de programação a se aproximar da linguagem humana – ficando conhecida como a “vovó do COBOL”. Ela também foi responsável por inventar o primeiro compilador – programa que traduz o código de uma linguagem textual para uma linguagem de máquina – numa época que se achava que computadores só eram capazes de fazer aritmética. Uma das histórias da origem do termo “bug” que se refere a erros de software é atribuída Hopper: ao tentar encontrar onde estava um problema em seu computador, descobriu um inseto morto dentro da máquina e acabou chamando o problema de “bug” (inseto, em inglês) [10].

Margaret Hamilton é uma engenheira de software que teve um papel fundamental na conquista espacial. Ela liderou a equipe que desenvolveu o software de voo da missão Apollo 11 (1969), que levou os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin à lua. O termo engenharia de software foi criado por ela, para descrever sua abordagem sistêmica no desenvolvimento do software Apollo, incluindo testes rigorosos, prevendo falhas e priorizando tarefas, que foram fundamentais para o sucesso da missão. O software era tão robusto que nenhum defeito de software foi encontrado em qualquer missão tripulada da Apollo e ainda impediu que a missão fosse abortada quando houve um problema minutos antes dos astronautas pousarem à lua [11].

A lista de mulheres brilhantes que trabalham com tecnologia segue: Edith Clarke, Dorothy Vaughan, Hedy Lamarr, Radia Perlman, Carol Shaw, dentre outras. Mulheres que inspiram outras a se orgulharem de programar como uma garota! A esperança é que, no futuro, mais pessoas conheçam, se inspirem e sejam essas mulheres.

Sobre a autora:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] Bogdan Vasilescu; Daryl Posnett; Baishakhi Ray; Mark Brand; Alexander Serebrenik; Premkumar Devanbu; Vladimir Filkov. Gender and Tenure Diversity in GitHub Teams. CHI, ACM, New York, 2015.

[2] National Center for Education Statistics. Degrees in computer and information sciences conferred by postsecondary institutions. 2017. Disponível em: <https://nces.ed.gov/programs/digest/d17/tables/dt17_325.35.asp>. Acesso em: 27 de fevereiro de 2019.

[3] Stack Overflow. Annual Developer Survey. Disponível em: <https://insights.stackoverflow.com/survey>. Acesso em: 27 de fevereiro de 2019.

[4] Esther Shein. Broadening the path for women in STEM. Commun, ACM, 2018.

[5] Evanildo da Silveira. Como as mulheres passaram de maioria a raridade nos cursos de informática. São Paulo, 2018. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-43592581>. Acesso em: 27 de fevereiro de 2019.

[6] Accenture. Conheça nossas iniciativas dedicadas às mulheres e construa uma carreira sólida conosco. Disponível em: <https https://www.accenture.com/br-pt/careers/mulheres>. Acesso em: 27 de fevereiro de 2019.

[7] Anna-Carin Rangedahl. Attracting more girls to IC. 2018. Disponível em: <https://www.ericsson.com/en/blog/2018/4/attracting-more-girls-to-ict>. Acesso em: 27 de fevereiro de 2019.

[8] Listagem colaborativa das iniciativas de mulheres na tecnologia pelo país. 2016. Disponível em: < https://mulheresnacomputacao.com/2016/03/12/mapeamento-colaborativo-das-iniciativas-de-mulheres-na-tecnologia-pelo-pais-3>. Acesso em: 27 de fevereiro de 2019.

[9] Walter Isaacson. Os inovadores: uma biografia da revolução digital. Companhia das letras, 2014.

[10] Patrícia Gnipper. Mulheres Históricas: conheça a história de Grace Hopper, a "vovó do COBOL". 2016. Disponível em: <https://canaltech.com.br/internet/mulheres-historicas-conheca-a-historia-de-grace-hopper-a-vovo-do-cobol-72559>. Acesso em: 27 de fevereiro de 2019.

[11] Nicholas Russo. Margaret Hamilton, Apollo Software Engineer, AwardedPresidentialMedalofFreedom. 2016. Disponível em: <https://www.nasa.gov/feature/margaret-hamilton-apollo-software-engineer-awarded-presidential-medal-of-freedom>. Acesso em: 27 de fevereiro de 2019.

 

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